Blog Seabra Clinic
O ponto cego da saúde: Porque aceitamos infeções na boca?
Que queriamos ver tratadas noutros pontos do corpo…
29-05-2026
Dr. Martins dos Santos
Implantologia
Milhões de pessoas convivem diariamente com gengivas que sangram e dentes com infeções cronicas (granulomas ou abcessos “silenciosos”), como se isso fosse um detalhe menor por não terem dor ou identificarem uma ferida aberta. Mas a boca não é uma ilha!
Pensemos na corrente sanguinea como “A autoestrada hematogénea”. Para a medicina integrativa, a boca é a porta de entrada para o resto do corpo.
Tecnicamente, os tecidos periodontais e periapicais são altamente vascularizados. Quando existe uma infeção ativa, ocorre o que chamamos de bacteriemia transitória, isto é, as bactérias e as suas endotoxinas entram diretamente na corrente sanguínea.
Uma vez que no sangue, estas bacterias têm um “passaporte para todo o corpo”:
- Coração: Espécies como a Porphyromonas gingivalis têm afinidade pelas válvulas cardíacas e pelas paredes das artérias, contribuindo para a formação de placas de ateroma e riscos de endocardite;
- Intestino: A deglutição constante de patógenos orais altera a microbiota intestinal (disbiose), exacerbando quadros inflamatórios digestivos;
- Zonas de Menor Resistência: Qualquer área debilitada ou com inflamação prévia torna-se um alvo fácil para a fixação destes microrganismos.
O dever do dentista biológico: Eliminar o fogo amigo (friendly fire)
Ser um dentista biológico é entender que o nosso dever não é apenas “tapar buracos”, mas eliminar focos de inflamação crónica que sobrecarregam o sistema imunitário.
Uma infeção silenciosa na raiz de um dente é como um “incêndio de baixa intensidade”: o seu corpo gasta energia 24 horas por dia a tentar contê-lo, desviando recursos que deveriam ser usados para a reparação celular e defesa contra outras doenças. Jacob Bannon disse: “Se eu estiver a arder as chamas devem ser extintas, não apenas a sensação de queima controlada.”
A cirurgia, nestes casos, não é apenas um procedimento dentário, mas uma intervenção sistémica de limpeza. Remover um dente infetado ou um granuloma que o osso não consegue regenerar sozinho é, muitas vezes, o passo que faltava para que um paciente recupere a vitalidade num órgão distante.
Por isso, digo que sou um desalojador de bactérias…
A medicina dentária integrativa foca-se na biocompatibilidade dos materiais e na erradicação de patologias orais que possam ter repercussões sistémicas. A literatura científica (como os estudos sobre a relação entre periodontite e doenças cardiovasculares ou diabetes) valida a existência do eixo oral-sistémico. A indicação cirúrgica para remoção de focos infeciosos segue princípios de desbridamento biológico: se o sistema imunitário não consegue eliminar o patógeno devido à anatomia local (como o interior de canais radiculares infetados ou osso necrótico), a intervenção física é o protocolo padrão para a restituição da saúde.
Em contrapartida, a cirurgia não deve ser tida como Panaceia. Não se pretende ignorar a capacidade regenerativa do hospedeiro quando o terreno biológico é otimizado e nem toda a imagem radiolúcida é uma infeção ativa e perigosa no momento, algumas são cicatrizes ósseas estáveis.
Toda a cirurgia é um trauma e é preciso cuidado para não atribuir todas as patologias sistémicas à boca. Embora a correlação exista, a causalidade direta é complexa e multifatorial. Dizer que “resolver a boca resolve o intestino” pode ser uma simplificação excessiva que retira o foco de outros pilares da medicina integrativa (dieta, estilo de vida).
No entanto, esta abordagem é profundamente empoderadora para a pessoa!
Ao compreender que a saúde da sua boca é o alicerce da sua longevidade, o paciente deixa de ver o dentista como um “mal necessário” para o ver como um aliado na sua performance biológica.